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Ano 10 - Número 29 - Agosto 2009 |
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| Edição número 29 |
Entrevista VIP |
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| Investimentos no divã |
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Vera Rita de Mello Ferreira |
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SAOL – O investidor que está com os papeis na mão e cheio de dúvidas, quando vende se sente aliviado?
VRMF – Exatamente. Mas o alívio passa rápido, já que ele terá de comprar outra vez. É o que a gente chama de viés de ação. Pesquisadores israelenses fizeram um estudo para detectar esse chamado viés de ação, quer dizer, uma tendência a agir só para se livrar da angústia. Eles observaram goleiros na hora do pênalti. O goleiro tem que pular antes da bola ser chutada porque, se não, não dá tempo. E o que os goleiros faziam era pular ou para um lado ou para o outro. Os pesquisadores fizeram entrevistas com times de elite da Europa e viram que eles deveriam ter uma postura mais racional, ou seja para dar “o melhor de si”, como eles falam, bastava ficar parado e tentar cobrir uma área maior. Mas não era isso o que eles faziam. A angústia deles era se sentir culpado ou ser acusado de não ter se esforçado. Por causa dessa angústia eles pulavam e nem conseguiam explicar porque pulavam. Foi daí que surgiu a ideia do viés de ação que pode ser transposto para os investidores. |
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SAOL – A predisposição ao risco é igual para diversos tipos de processos decisórios? Por exemplo: a pessoa que gosta de esporte de risco, também é arrojada quando investe?
VRMF – Vai depender um pouco do tipo de personalidade da pessoa. Se a personalidade for mais integrada, a tendência vai ser demonstrar o mesmo tipo de predisposição a risco em qualquer setor da vida. Mas para algumas pessoas é o oposto, às vezes a pessoa tem uma vida familiar extremamente conservadora e é o oposto no esporte ou nos investimentos. |
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SAOL – Essa predisposição também varia de acordo com o sexo?
VRMF – Uma pesquisa que agora estão questionando dizia que o nível de testosterona estava associado a um apetite maior de risco. Então homens jovens de manhã tenderiam a correr mais riscos porque o nível de testosterona está mais alto. Eu acho que é mais um padrão cultural do que biológico. A mulher tende a olhar mais a longo prazo, porque ela é mais responsável pela prole e até o momento elas são mais conservadoras porque não sabem tanto. O dinheiro para nós mulheres é uma coisa meio recente, porque antes a mulher ficava em casa, cuidava dos filhos e o homem saia para trabalhar. A mulher adentrou ao mundo do dinheiro em meados do século 20 e só muito recentemente no mundo dos investimentos. Mas já se observa que à medida que elas vão aprendendo, que estão adquirindo mais experiência no mercado financeiro, começam a investir como homens. Estão ficando mais arrojadas. |
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SAOL – E buscar informação é importante?
VRMF – Acho que deveriam tomar cuidado com a maneira de apresentar as informações para o investidor porque as pessoas avaliam muito rapidamente e de uma forma imprecisa as informações. O que acontece é um palavrão da psicologia econômica, chamado de heurística de disponibilidade, que nada mais é do que um atalho mental. A cabeça da gente corta caminho e baseia os julgamentos na disponibilidade de informações presentes em nossa memória, ou seja, eu atribuo maior probabilidade àquilo que eu me lembro mais facilmente. Isso vale para a questão da carência dos fundos. Os investidores podem ter se assustado por terem se lembrado dessa experiência do passado quando houve o confisco da poupança, no plano Collor: eu tinha o dinheiro, ele estava ali ao alcance da minha mão e eu não podia pegá-lo. Então, quando se apresenta uma informação para o investidor é preciso tomar muito cuidado porque se tocar em uma tecla errada poderá colocar tudo a perder. |
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SAOL – Os gestores, como humanos que são, também estão sujeitos a agir mais emocionalmente que racionalmente. Como eles fazem para se controlar?
VRMF – Uma coisa que ajuda os gestores é o fato de não ser o próprio dinheiro que eles estão administrando. Isso já te dá um pouco mais de distanciamento, de serenidade. É por isso que considero válido quando o investidor entrega a administração dos recursos para um gestor ou outra pessoa. O que não pode é entregar de mão beijada. É preciso acompanhar também para se responsabilizar por ele. Conhecer de fato mais a fundo o processo decisório do ponto de vista psicológico é uma ferramenta útil para o gestor, sem dúvida. Eu acho muito útil que não se confie demais nos índices e que haja um esforço mesmo pra tentar chegar em uma observação mais completa dos cenários. Eu também acharia muito bom se a gente conseguisse desacelerar essa velocidade do mercado financeiro hoje, que é instantânea. É claro que o mundo está interligado na internet 24 horas por dia, mas desse jeito é quase impossível tomar decisões. Um aluno meu lembrou uma coisa interessante: como é que você faria para vender um imóvel se você tivesse cotações minuto a minuto? “Está em R$ 400 mil. Agora está R$ 390 mil. Não, subiu para R$ 415 mil.” Seria impossível. E no mercado financeiro é desse jeito que funciona. Por isso, os gestores precisam de mais instrumentos psicológicos ainda. |
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