Ano 10 - Número 29 - Agosto 2009
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Edição número 29 | Entrevista VIP
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Investimentos no divã

Vera Rita de Mello Ferreira

A psicanalista e psicóloga econômica Vera Rita de Mello Ferreira, consultora e pesquisadora do componente emocional que acompanha as decisões econômicas, foi a convidada da SulAmérica para o evento de lançamento da marca Prestige, uma linha de produtos financeiros formatada para o investidor de alta renda. No talk show, Vera Rita mostrou como o lado emocional está presente nas decisões de investimentos, lembrou que a geração dos 40 anos para cima ainda guarda na mente a experiência da inflação e tentou por fim na eterna disputa entre homens e mulheres.

Para a psicóloga, a máxima de que mulher é cautelosa e o homem é arrojado nos investimentos é um padrão cultural e não biológico. “A mulher adentrou no mundo do dinheiro, no mundo dos investimentos, só muito recentemente, em meados do século 20. Por isso, elas normalmente são mais cautelosas e vão atrás de informações. Com o tempo, porém, já começamos a ver uma mudança interessante: as mulheres estão adquirindo mais experiência no mercado financeiro e começam a investir como homens, correndo mais riscos”.

Os melhores momentos do talk show estão na entrevista a seguir:
SulAmérica Online – Saber o nosso perfil de investidor é suficiente para tomarmos boas decisões de investimentos?
Vera Rita de Mello Ferreira – Quando pensamos em termos de funcionamento mental percebemos que o ser humano é meio pendular e age, na maior parte do tempo, de uma maneira primitiva, olhando só no curto prazo. Isso acontece porque as pessoas não gostam de perder, na verdade, odeiam, abominam perder. No trânsito, por exemplo, quando a gente acha que a fila do lado está andando mais rápido, a gente troca para ela. Aí a nossa fila antiga anda um pouquinho e tentamos voltar. Quando as pessoas fazem isso com o investimento, a tendência é perder muito dinheiro com encargos, taxas e até com Imposto de Renda. Mas mesmo assim fazemos porque neste momento estamos trabalhando com nosso modo mais primitivo, aquele que olha só no curto prazo, que busca uma satisfação imediata. Muito mais raramente a gente funciona de uma forma um pouco mais integrada, mais madura, que aguenta um solavanco no curto prazo porque sabe que no longo prazo vem um retorno interessante.
SAOL – Então, melhor do que saber se somos arrojados, moderados ou conservadores, o que precisamos é descobrir o quanto conseguimos controlar o nosso lado primitivo?
VRMF – Sim, porque somos dominados predominantemente pelas emoções, esse é o lado mais primitivo da nossa mente. A espécie humana ficou funcionando com o circuito emocional – que é a parte posterior do cérebro – durante centenas de milhões de anos e só muito recentemente é que nós começamos a desenvolver a área pré-frontal do cérebro, que é responsável pela razão. Por isso, esse funcionamento é muito precário, é muito instável. Basta um peteleco para sairmos do eixo. O investidor norte-americano Warren Buffet costuma dizer que “para ter sucesso nos investimentos, basta ter um quociente de inteligência (QI) acima de 25”. Na psicologia, o QI normal fica na faixa de 95 a 110, menos que isso é idiotia, estupidez, cretinismo. Os 25 citados por Buffet estão abaixo de cretino porque ele diz que não é preciso ser inteligente para ser um grande investidor. O que importa mesmo é administrar os impulsos, ou seja, administrar as emoções.
"Não é preciso ser inteligente para ser um grande investidor. O que importa mesmo é administrar os impulsos, ou seja, administrar as emoções" - Vera Rita
SAOL – Se as pessoas tentassem conhecer melhor o seu perfil de risco, elas conseguiriam escapar da armadilha de ficar trocando de mão (mudando de investimento) a toda hora e na hora errada?
VRMF – Essa é uma aposta. Por isso livros, artigos, cursos e palestras estão chamando a atenção para isso. A mente humana é o nosso asset mais valioso. Quem viveu na época da inflação, como eu, percebia mais claramente. Naquela época, a gente sabia como a economia era absolutamente imprevisível. Se você bobeasse, o dinheiro virava pó. Então, ou você tinha uma cabeça que ajudava, que funcionava minimamente para você sobreviver naquele caos permanente, ou então realmente entrava pelo cano.
SAOL – Qual o grande medo do investidor diante do investimento?
VRMF – Incerteza, ambiguidade, perda, ter de considerar o todo. Por exemplo, ter que comparar as diferentes possibilidades de aplicação pode ser pior do que tomar a decisão em si. Então, o jeito primitivo de tomar decisão é como uma espécie de descarga daquela tensão, daquela ansiedade que se sente por ter que analisar todas as possibilidades.
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