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Entrevista
 

 
 

Por Patrícia Gonzalez

IRB: preparado para o novo cenário

O mercado segurador acompanhou com muita atenção o acordo firmado, recentemente, entre os líderes de todos os partidos na Câmara para assinar o pedido de tramitação urgente para o projeto de lei complementar que acaba com o monopólio do resseguro no país. As expectativas são de que o assunto esteja concluído até o final do ano, pondo fim a um processo que tem sido aguardado há muito tempo.
Pouco antes dessa movimentação, o presidente do Instituto de Resseguros do Brasil S.A. (IRB-Brasil-Re), Eduardo Nakao, disse à SulAmérica Online que a empresa está preparada para o resultado da discussão no Congresso Nacional.

Ele destaca que duas metas prioritárias de sua gestão são o fortalecimento patrimonial e o aumento do poder de competição do IRB. “Assim, o IRB ficará habilitado a enfrentar quaisquer condições de mercado e, simultaneamente, preparado para assegurar retorno estável aos acionistas”, destaca. Este e outros temas importantes são abordados nesta entrevista.

Foto: Divulgação

Eduardo Nakao, Presidente do
Instituto de Resseguros do Brasil S.A.

 


SULAMÉRICA ONLINE –
Em que situação o senhor encontrou o IRB quando assumiu a sua presidência?
EDUARDO NAKAO – Considerando o monopólio e a condição de sociedade de economia mista, o estágio avançado da estrutura das operações de resseguro e a penetração do IRB-Brasil-Re no mercado internacional são ativos intangíveis com valor econômico elevado que destaco ao assumir o cargo. Entendo que essas conquistas foram fruto de dedicação e esforço, muitas vezes em caráter pessoal, dos funcionários que atuaram e atuam há longo tempo no IRB-Brasil-Re. Em termos de postura, observo que os funcionários mantêm objetivos típicos de empresa privada, mas procuram tratar as operações por eles conduzidas com os cuidados observados em empresas públicas.

SAOL – Que metas foram traçadas para a sua gestão?
NAKAO – O fortalecimento patrimonial e o aumento do poder de competição da empresa. Dessa forma, o IRB-Brasil-Re fica habilitado a enfrentar quaisquer condições de mercado e, simultaneamente, preparado para assegurar retorno estável aos acionistas. As medidas para atingir as metas estão baseadas em alterações marginais no relacionamento com as sociedades seguradoras, iniciando a utilização de parâmetros de avaliação de seu desempenho, isoladamente e diante do resseguro, e no aprofundamento das relações com resseguradoras, direta e indiretamente. Como efeitos, a minha expectativa é de que as sociedades seguradoras assumam funções ativas na precificação adequada de riscos e no desenvolvimento de indicadores de gestão e de suas próprias operações de seguro, para que sejam inteligíveis e críveis para os segurados.

SAOL – Como está o processo de abertura do mercado ressegurador? O IRB-Brasil-Re hoje está realmente preparado para este movimento?
NAKAO – O projeto de lei complementar encontra-se em análise na Comissão de Finanças e Tributação, para posterior trâmite na Comissão de Constituição e Justiça. O IRB-Brasil-Re acompanha a evolução do projeto de lei complementar e, portanto, está preparado para o resultado da discussão no Congresso Nacional. A meu ver, o julgamento da condição do IRB-Brasil-Re deve ser feito pelo acerto ou equívoco das últimas medidas adotadas, tais como a permissão aos clientes de indicar corretores de resseguro, a implantação do Sistema Integrado de Negócios (SIN), o uso de rating, o aumento da capacidade de retenção de riscos em ramos selecionados e a opção pela prática de processos seletivos na colocação de riscos.

SAOL Qual a sua posição a respeito da criação do centro de resseguro no Rio de Janeiro?
NAKAO – Observo como um projeto interessante para o país, principalmente se a avaliação considerar que o objetivo do centro de resseguro é incrementar o setor de prestação de serviços no estado, e o resseguro, na realidade, representa uma commodity com custo reduzido de aprendizado, mas com benefícios que ultrapassam a simples observação de receitas financeiras esperadas.

SAOL Entrando numa questão mais específica de mercado, o senhor não acha que atribuir a mesma comissão de resseguro a todas as cedentes, independentemente do resultado que proporcionam ao IRB, não significa desestimular um melhor processo de subscrição?
NAKAO – A fixação de comissões de seguro uniformes para todas as cedentes de fato desestimula a melhoria dos resultados a serem obtidos no processo de subscrição. Mas ressalto que as regras que perduram por anos, com mérito ou não, transformam-se em regras justas, pela adaptação dos participantes. Assim, lembro que o IRB-Brasil-Re já pratica comissões diferenciadas nas operações de resseguro, a exemplo dos Contratos de Seguros Multirriscos e dos Contratos Particulares negociados caso a caso. Informo, ainda, haver estudos sobre a aplicação de comissões diferenciadas, com base em parâmetros relativos ao desempenho global, passado e futuro, das sociedades seguradoras nas operações de resseguro.

SAOL – Como o senhor avalia a cessão de parte do risco de grandes empresas a suas cativas no exterior?
NAKAO – Se as grandes empresas preferem fazer uso de cativas a outras resseguradoras, a decisão deve ser aceita pelos participantes do mercado securitário, de imediato, mas consideradas as particularidades que a intermediação de riscos representa para o patrimônio dos acionistas. Ressalto que a cessão, qualquer que seja o cessionário, deverá acompanhar as condições impostas às demais operações de colocação de risco no exterior.

SAOL – Qual será, na sua avaliação, o cenário do mercado de resseguro no Brasil nos próximos dez anos?
NAKAO – As operações de resseguro, com riscos diluídos e compartilhados entre diferentes participantes, deverão sofrer modificações em seu processo de estruturação, com o objetivo de diferenciar a cobertura para determinados segurados e, ao mesmo tempo, fornecer condições para que as sociedades seguradoras possam ampliar o número de demandantes por seguro. Afinal, as operações de seguro de interesse individual, relacionadas à vida, proteção patrimonial e veículos, em ambiente regulatório que sofre constantes atualizações, deverão apresentar crescimento mais acelerado nos próximos anos, e aquelas de interesse social, como seguro agrícola, passarão também por transformações de foco e de financiamento. A precificação de riscos, com adoção de técnicas constantemente atualizadas, passará a constituir-se em importante instrumento de trabalho diante da fixação de requisitos mínimos de capital e dos conceitos de margens de solvência.

SAOL – O IRB continuará incentivando as seguradoras brasileiras a procurarem condições de resseguro no mercado externo?
NAKAO – No momento, nada indica o impedimento dessa prática, uma vez que os resultados têm sido favoráveis para a sociedade seguradora e para o segurado, que são detentores de uma alternativa adicional, e para o próprio IRB-Brasil-Re, que fica com a supervisão e o controle do processo de colocação.