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Entrevista
   

 
   

Por Patrícia Gonzalez

O seguro é muito importante para o país

O mercado segurador tem grande potencial para elevar de 3% para 5% a sua participação no Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro. O grande desafio, na avaliação do presidente da Federação Nacional das Empresas de Seguros e Capitalização (Fenaseg), João Elísio Ferraz de Campos, é conseguir que esse crescimento seja decorrente da incorporação de novas pessoas ao sistema e não apenas o reflexo da venda de mais apólices para o atual universo de segurados. Nesta entrevista para a SulAmérica Online, o executivo curitibano, que há 14 anos preside a entidade, aborda questões importantes como a abertura do mercado ressegurador e as ações adotadas pela Fenaseg para mostrar à sociedade a importância do seguro e ampliar o relacionamento com os corretores e demais agentes do setor.

Foto: Arquivo Pessoal

João Elísio Ferraz de Campos
,

Presidente da Fenaseg

   


SulAmérica Online – Quais são as expectativas de crescimento para o mercado segurador este ano, diante de um cenário de eleições e de mudanças no comando da economia do país?
JOÃO ELÍSIO – O mercado segurador é um segmento que, por natureza, está ligado aos rumos da economia do país. Mas, mesmo assim, as previsões para este ano são de crescimento impulsionado pela capacidade inovadora do mercado de atender às necessidades da sociedade, sempre oferecendo produtos para suprir as novas demandas que surgem a cada dia.
No entanto, devemos estar conscientes de que, para alcançarmos crescimento mais expressivo nos próximos anos, dependemos de ações governamentais que estimulem a economia e a distribuição de renda. Atualmente, a sociedade já compreendeu que o seguro é um gasto importante, mas a renda da maioria dos brasileiros não permite ter este tipo de proteção.
Prova disso é a pesquisa realizada pelo Ibope, que revela que 82% dos entrevistados consideram o seguro importante ou muito importante. Mas, apenas 42% das pessoas declararam possuir algum tipo de apólice. O que nos leva a concluir que o aumento das vendas do setor não depende apenas das seguradoras. A inclusão de novos clientes neste mercado está, sim, diretamente relacionada à disponibilidade de renda em nosso país. Ao mesmo tempo, sabemos que o mercado tem potencial para alcançar expansão mais expressiva e participação no PIB de 5% (hoje gira em torno em 3%). O grande desafio que temos pela frente é conseguir que este crescimento seja decorrente da incorporação de novas pessoas ao sistema e não apenas reflexo da venda de novas apólices para o atual universo de segurados.

SAOL – Que carteiras deverão se destacar este ano?
JE – A expectativa é de crescimento em torno da popularização dos produtos mais tradicionais e massificados. Esse é o caso, por exemplo, dos seguros de automóvel, que hoje somente têm penetração em 27% da frota nacional dos veículos em circulação.
É também o caso dos seguros de vida e residenciais, especificamente aqueles desenhados e voltados para a população de menor renda. Em ambos os casos, a expectativa é utilizar canais alternativos de distribuição, tais como as redes de varejo, para crescer.
Já nos produtos menos tradicionais, o mercado identifica expectativas de expansão em torno da carteira dos seguros garantia, com a viabilização das PPPs e com a retomada dos investimentos pelo governo em obras de infra-estrutura. Há também os seguros de responsabilidade civil, para os profissionais liberais e para os administradores de empresas (D&O), e o seguro rural, com a efetivação do subsídio previsto em lei pelo governo.
A Susep também regulamentou o seguro de garantia estendida. O objetivo foi trazer para o mercado de seguros uma atividade já largamente praticada hoje, mas que não estava submetida às regras de controle e supervisão como o seguro e, portanto, sem as mesmas garantias. As empresas que hoje oferecem garantia estendida têm até o dia 1º de junho de 2006 para se adequarem às novas regras. E a perspectiva é de que este novo segmento movimente em torno de R$ 700 milhões por ano em prêmios.

SAOL – Que ações serão priorizadas pela Fenaseg no sentido de fortalecer o mercado segurador nos próximos anos?
JE – Nosso objetivo é continuar trabalhando em busca do desenvolvimento sustentável do mercado segurador brasileiro. Estamos envolvidos em várias frentes, dentre elas, a questão da imagem do setor. É preciso que a sociedade reconheça a real importância que o seguro tem no seu dia-a-dia.
Mas, para isso, precisamos mostrar à população como funciona o seguro, sua importância na proteção do patrimônio das pessoas e das riquezas do país, e seu papel como investidor institucional e formador de poupança interna. Se o seguro não existisse, como ficariam as pessoas e as empresas em caso de um evento fortuito? Em quem elas se apoiariam, nos familiares? Iriam à falência, buscariam apoio em organizações não-governamentais ou no governo?
Precisamos também buscar uma aproximação maior com o segurado. Por isso temos apoiado ações nesse sentido. Uma delas é a implantação das Ouvidorias nas empresas, idéia do superintendente da Susep, Renê Garcia, e tão bem aceita pelo setor. Em maio vamos promover, no Rio de Janeiro, um seminário sobre Ouvidorias e a transparência na relação com o consumidor. A idéia é que o encontro seja um fórum de debates entre mercados formadores de opinião e consumidores para que possamos avaliar, juntos, os avanços dessa ferramenta e o que ainda pode ser melhorado em busca de uma relação cada vez mais transparente entre seguradora e segurado.

SAOL – O senhor acredita que a troca de comando no IRB poderá prejudicar o processo de abertura do mercado ressegurador? Como as seguradoras estão se preparando para esse novo cenário?
JE – Não acredito que vá prejudicar o processo, pois muitos passos à frente já foram dados. O ex-presidente do IRB, Marcos Lisboa, fez um amplo e consistente trabalho de preparação da resseguradora e do próprio mercado para abertura do resseguro. O Projeto de Lei nº 249/05 em tramitação no Congresso mereceu destaque no relatório final dos trabalhos da CPMI dos Correios, tendo o seu relator, deputado Osmar Serraglio, recomendado sua votação em regime de urgência urgentíssima.
Ressalto sempre que, dos três maiores mercados de seguro emergentes no mundo: Brasil, China e Índia, apenas o Brasil mantém o monopólio das operações de resseguro. China e Índia reconheceram que, para facilitar a evolução do setor de seguros e ter acesso ao benefício da contribuição do capital global dos resseguradores, era preciso abrir o mercado de resseguro.
Os resseguradores internacionais têm grande interesse pelo mercado brasileiro. Isso não se deve ao volume atual de prêmios cedidos, mas a fatores como a força econômica do Brasil, o crescimento regular do mercado segurador, a qualidade da carteira dos riscos ressegurados, a ausência de catástrofes naturais e o potencial de crescimento em relação a novos produtos ou segmentos que os internacionais podem incrementar no país.
Por todos esse fatores, acredito que a abertura certamente contribuirá para o crescimento do mercado e a implantação de novas modalidades de seguros. Além disso, trará como um dos principais benefícios a prática da concorrência para gerar o melhor produto ou produtos de cobertura tanto para o seguro de pessoas físicas quanto para os maiores grupos industriais do nosso país, através do uso eficaz do resseguro. Hoje em dia, com o mercado fechado, nossas seguradoras não podem se destacar porque todas têm acesso à mesma ferramenta de resseguro, oferecida pelo ressegurador monopolista. A abertura do mercado permitirá que as seguradoras usem o resseguro de forma mais eficaz e criativa.

SAOL – O que tem sido feito pela Fenaseg no sentido de ampliar o relacionamento com os corretores do seguro?
JE – A Fenaseg, como sempre fez, mantém um canal de diálogo constante e aberto com as lideranças de corretores de seguros como Fenacor e Sincors. Acreditamos que o papel do corretor de seguros é de extrema relevância no mercado, pois cabe a ele o contato direto com nosso público final, o segurado. Por isso, a importância de trabalharmos juntos e afinados em prol de um mercado mais forte e cuja importância seja verdadeiramente reconhecida pela sociedade. E nesse sentido, o corretor tem papel fundamental.

SAOL – Em relação às ações de combate à fraude, que tipo de resultados já foram alcançados?
JE – A prevenção da fraude em seguro é um desafio para o mercado. E essa luta não será bem-sucedida se não conseguirmos engajar toda a sociedade. É preciso entender que uma fraude cometida contra o seguro certamente é um prejuízo para a seguradora, mas é, acima de tudo, um prejuízo para o segurado, que paga mais por isso.
O que estamos tentando obter é uma mudança de paradigma e isso leva tempo. Nessa área temos trabalhado em várias frentes, como o fortalecimento do setor de inteligência do projeto, oferecendo ao mercado instrumentos que permitam, por exemplo, a quantificação da fraude. Fechamos a coleta dos 1º e 2º Ciclos no início deste ano, e vamos dar início, em abril, à coleta do 3º Ciclo, onde serão apurados dados sobre casos de suspeitas de fraudes ocorridos até dezembro de 2005.
Temos também ampliado a cooperação com os poderes públicos, especialmente magistratura, polícias (militar, estadual e federal) e Ministério Público, levando até esses fóruns a discussão sobre a importância da prevenção e redução das fraudes em seguros e também propondo que seja feita uma revisão da legislação vigente.
Estamos também apoiando a estruturação de unidades de investigações especiais nas seguradoras. Não podemos deixar de citar a criação dos serviços de Disque-Denúncia que já estão funcionando em três estados: Rio de Janeiro – 21-2253-1177; São Paulo –181, 0800-156315 e 11-3272-7373; e Pernambuco – 81-3421-9595. A idéia é a ampliação destes serviços em âmbito nacional, permitindo que a população denuncie diretamente a fraude contra o seguro.
Mas todas essas ações precisam do apoio de todo o mercado, no sentido de participar da divulgação da importância de se prevenir a fraude e informar os dados necessários para que possamos traçar um raio-x da realidade da fraude no mercado de seguros e, dessa forma, termos instrumentos para ajudar a reduzi-la.