| |
|
SulAmérica Online –
Quais são as expectativas de crescimento para o mercado segurador
este ano, diante de um cenário de eleições e de mudanças
no comando da economia do país?
JOÃO ELÍSIO – O mercado segurador
é um segmento que, por natureza, está ligado aos rumos da
economia do país. Mas, mesmo assim, as previsões para este
ano são de crescimento impulsionado pela capacidade inovadora do
mercado de atender às necessidades da sociedade, sempre oferecendo
produtos para suprir as novas demandas que surgem a cada dia.
No entanto, devemos estar conscientes de que, para alcançarmos
crescimento mais expressivo nos próximos anos, dependemos de ações
governamentais que estimulem a economia e a distribuição
de renda. Atualmente, a sociedade já compreendeu que o seguro é
um gasto importante, mas a renda da maioria dos brasileiros não
permite ter este tipo de proteção.
Prova disso é a pesquisa realizada pelo Ibope, que revela que 82%
dos entrevistados consideram o seguro importante ou muito importante.
Mas, apenas 42% das pessoas declararam possuir algum tipo de apólice.
O que nos leva a concluir que o aumento das vendas do setor não
depende apenas das seguradoras. A inclusão de novos clientes neste
mercado está, sim, diretamente relacionada à disponibilidade
de renda em nosso país. Ao mesmo tempo, sabemos que o mercado tem
potencial para alcançar expansão mais expressiva e participação
no PIB de 5% (hoje gira em torno em 3%). O grande desafio que temos pela
frente é conseguir que este crescimento seja decorrente da incorporação
de novas pessoas ao sistema e não apenas reflexo da venda de novas
apólices para o atual universo de segurados.
SAOL – Que carteiras deverão se destacar
este ano?
JE – A expectativa é de crescimento em torno
da popularização dos produtos mais tradicionais e massificados.
Esse é o caso, por exemplo, dos seguros de automóvel, que
hoje somente têm penetração em 27% da frota nacional
dos veículos em circulação.
É também o caso dos seguros de vida e residenciais, especificamente
aqueles desenhados e voltados para a população de menor
renda. Em ambos os casos, a expectativa é utilizar canais alternativos
de distribuição, tais como as redes de varejo, para crescer.
Já nos produtos menos tradicionais, o mercado identifica expectativas
de expansão em torno da carteira dos seguros garantia, com a viabilização
das PPPs e com a retomada dos investimentos pelo governo em obras de infra-estrutura.
Há também os seguros de responsabilidade civil, para os
profissionais liberais e para os administradores de empresas (D&O),
e o seguro rural, com a efetivação do subsídio previsto
em lei pelo governo.
A Susep também regulamentou o seguro de garantia estendida. O objetivo
foi trazer para o mercado de seguros uma atividade já largamente
praticada hoje, mas que não estava submetida às regras de
controle e supervisão como o seguro e, portanto, sem as mesmas
garantias. As empresas que hoje oferecem garantia estendida têm
até o dia 1º de junho de 2006 para se adequarem às
novas regras. E a perspectiva é de que este novo segmento movimente
em torno de R$ 700 milhões por ano em prêmios.
SAOL – Que ações serão priorizadas
pela Fenaseg no sentido de fortalecer o mercado segurador nos próximos
anos?
JE – Nosso objetivo é continuar trabalhando
em busca do desenvolvimento sustentável do mercado segurador brasileiro.
Estamos envolvidos em várias frentes, dentre elas, a questão
da imagem do setor. É preciso que a sociedade reconheça
a real importância que o seguro tem no seu dia-a-dia.
Mas, para isso, precisamos mostrar à população como
funciona o seguro, sua importância na proteção do
patrimônio das pessoas e das riquezas do país, e seu papel
como investidor institucional e formador de poupança interna. Se
o seguro não existisse, como ficariam as pessoas e as empresas
em caso de um evento fortuito? Em quem elas se apoiariam, nos familiares?
Iriam à falência, buscariam apoio em organizações
não-governamentais ou no governo?
Precisamos também buscar uma aproximação maior com
o segurado. Por isso temos apoiado ações nesse sentido.
Uma delas é a implantação das Ouvidorias nas empresas,
idéia do superintendente da Susep, Renê Garcia, e tão
bem aceita pelo setor. Em maio vamos promover, no Rio de Janeiro, um seminário
sobre Ouvidorias e a transparência na relação com
o consumidor. A idéia é que o encontro seja um fórum
de debates entre mercados formadores de opinião e consumidores
para que possamos avaliar, juntos, os avanços dessa ferramenta
e o que ainda pode ser melhorado em busca de uma relação
cada vez mais transparente entre seguradora e segurado.
SAOL – O senhor acredita que a troca de comando
no IRB poderá prejudicar o processo de abertura do mercado ressegurador?
Como as seguradoras estão se preparando para esse novo cenário?
JE – Não acredito que vá prejudicar
o processo, pois muitos passos à frente já foram dados.
O ex-presidente do IRB, Marcos Lisboa, fez um amplo e consistente trabalho
de preparação da resseguradora e do próprio mercado
para abertura do resseguro. O Projeto de Lei nº 249/05 em tramitação
no Congresso mereceu destaque no relatório final dos trabalhos
da CPMI dos Correios, tendo o seu relator, deputado Osmar Serraglio, recomendado
sua votação em regime de urgência urgentíssima.
Ressalto sempre que, dos três maiores mercados de seguro emergentes
no mundo: Brasil, China e Índia, apenas o Brasil mantém
o monopólio das operações de resseguro. China e Índia
reconheceram que, para facilitar a evolução do setor de
seguros e ter acesso ao benefício da contribuição
do capital global dos resseguradores, era preciso abrir o mercado de resseguro.
Os resseguradores internacionais têm grande interesse pelo mercado
brasileiro. Isso não se deve ao volume atual de prêmios cedidos,
mas a fatores como a força econômica do Brasil, o crescimento
regular do mercado segurador, a qualidade da carteira dos riscos ressegurados,
a ausência de catástrofes naturais e o potencial de crescimento
em relação a novos produtos ou segmentos que os internacionais
podem incrementar no país.
Por todos esse fatores, acredito que a abertura certamente contribuirá
para o crescimento do mercado e a implantação de novas modalidades
de seguros. Além disso, trará como um dos principais benefícios
a prática da concorrência para gerar o melhor produto ou
produtos de cobertura tanto para o seguro de pessoas físicas quanto
para os maiores grupos industriais do nosso país, através
do uso eficaz do resseguro. Hoje em dia, com o mercado fechado, nossas
seguradoras não podem se destacar porque todas têm acesso
à mesma ferramenta de resseguro, oferecida pelo ressegurador monopolista.
A abertura do mercado permitirá que as seguradoras usem o resseguro
de forma mais eficaz e criativa.
SAOL – O que tem sido feito pela Fenaseg no sentido
de ampliar o relacionamento com os corretores do seguro?
JE – A Fenaseg, como sempre fez, mantém
um canal de diálogo constante e aberto com as lideranças
de corretores de seguros como Fenacor e Sincors. Acreditamos que o papel
do corretor de seguros é de extrema relevância no mercado,
pois cabe a ele o contato direto com nosso público final, o segurado.
Por isso, a importância de trabalharmos juntos e afinados em prol
de um mercado mais forte e cuja importância seja verdadeiramente
reconhecida pela sociedade. E nesse sentido, o corretor tem papel fundamental.
SAOL – Em relação às ações
de combate à fraude, que tipo de resultados já foram alcançados?
JE – A prevenção da fraude em seguro
é um desafio para o mercado. E essa luta não será
bem-sucedida se não conseguirmos engajar toda a sociedade. É
preciso entender que uma fraude cometida contra o seguro certamente é
um prejuízo para a seguradora, mas é, acima de tudo, um
prejuízo para o segurado, que paga mais por isso.
O que estamos tentando obter é uma mudança de paradigma
e isso leva tempo. Nessa área temos trabalhado em várias
frentes, como o fortalecimento do setor de inteligência do projeto,
oferecendo ao mercado instrumentos que permitam, por exemplo, a quantificação
da fraude. Fechamos a coleta dos 1º e 2º Ciclos no início
deste ano, e vamos dar início, em abril, à coleta do 3º
Ciclo, onde serão apurados dados sobre casos de suspeitas de fraudes
ocorridos até dezembro de 2005.
Temos também ampliado a cooperação com os poderes
públicos, especialmente magistratura, polícias (militar,
estadual e federal) e Ministério Público, levando até
esses fóruns a discussão sobre a importância da prevenção
e redução das fraudes em seguros e também propondo
que seja feita uma revisão da legislação vigente.
Estamos também apoiando a estruturação de unidades
de investigações especiais nas seguradoras. Não podemos
deixar de citar a criação dos serviços de Disque-Denúncia
que já estão funcionando em três estados: Rio de Janeiro
– 21-2253-1177; São Paulo –181, 0800-156315 e 11-3272-7373;
e Pernambuco – 81-3421-9595. A idéia é a ampliação
destes serviços em âmbito nacional, permitindo que a população
denuncie diretamente a fraude contra o seguro.
Mas todas essas ações precisam do apoio de todo o mercado,
no sentido de participar da divulgação da importância
de se prevenir a fraude e informar os dados necessários para que
possamos traçar um raio-x da realidade da fraude no mercado de
seguros e, dessa forma, termos instrumentos para ajudar a reduzi-la.
|
|